As Asas da História

 

Oliveiras e sobreiros polvilharão a paisagem abrasadora. Não refrescaremos esta descrição com o vento. Pelo contrário, avivaremos o ardor do sol, tingindo a paisagem de carmesim, enrubescendo a linha do horizonte como o das férias sulistas. A forragem, atrofiada, descansará tranquila, enquanto nós instigaremos um corvo a crocitar e a estilhaçar o silêncio. Colocaremos três pastorinhos deitados à sombra de uma azinheira, chamar-lhes-emos Lúcia, Jacinta e Francisco. Para obedecer a expectativas bucólicas, assim como de coerência literária, iremos rodeá-los com um rebanho de ovelhas. As ovelhas são secundárias à história mas talvez se convertam num mote de menor repetição simbólica. Desejamos subtileza de caracterização. Descrevê-los-emos em pobreza, compar-tilhando azeitonas e broa.

Os pastores são crianças. Lúcia, mais velha, quase não ultrapassa a altura dos chifres do carneiro-mor. Os pastorinhos esgotam os dias a brincar na sombra, inventando mil e uma brincadeiras, às cambalhotas no tapete de bolotas derramadas sobre a terra. Nesta história poderíamo-nos arriscar a apresentar um senhorio, com décadas de excessos, a entornar a barriga sobre as calças brancas, mas arriscamo-nos a sucumbir à tentação do melodrama, ou pior ainda, do cliché. Restrinjamo-nos então aos pastorinhos e autorizemo-los a dar rumo à história do modo como só as crianças se mostram aptas.

O sol, levantado ao céu, obriga os bichos ao socorro da sombra e as ovelhas congregam-se em pequenos enxames debaixo das azinheiras. O calor é insuportável e mesmo as moscas dormitam nos ramos da oliveira. Os pastorinhos terminam a broa e entretêm-se a cuspir o último dos caroços em longos e preguiçosos sopros na direção das ovelhas circunvizinhas; do odre, enchem o vazio que resta no estômago. O esforço da respiração parece excessivo sob o peso tórrido do sol. Os pastorinhos arranjam as ovelhas como almofadas e deitam-se. Através das brechas da folhagem contemplam o azul celeste e, nas nuvens, procuram anjos. Esta tarde é a Lúcia que reconhece Arcanjo Gabriel nas alturas. Uma vez desmascarado, o anjo necessita de magra persuasão para os pastorinhos meterem conversa.

«Arcanjo Gabriel, porque se mostra tão manso?»

O Arcanjo suspira, mal perturbando uma folha de azinheira.

«Ahhh… pastorinhos, repouso, cansado de deambular pelos céus à procura duma alma pura, alma disposta a escutar as palavras da Nossa Senhora. Porventura conhecem alguém?»

Os pastorinhos, atrapalhados, entreolham-se e enco-lhem os ombros. Francisco, mais novo, responde.

«Eu cá tentava a casa verde para lá do barranco onde o Ti Oslavo mora. A nossa tia farta-se de dizer que ele é um santo dum velho».

O tempo passa.

O sol abranda o olhar penetrante à terra. As ovelhas, pouco a pouco, movem-se. O baloiçar de chocalhos do rebanho hipnotiza a paisagem. Os pastorinhos mantêm-se debaixo do guarda-sol protetor da azinheira. O tempo para. O mundo exterior não fornece qualquer interrupção aos contornos repetitivos da paisagem e aos chocalhos.

(…)

excerto                         ©paulodacosta

de:  O Perfume da Mentira,  LPD 2012  – paulo da costa (Autor)

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