O Perfume da Mentira


Nunca tivemos má fé contra a Camila Penca. Simplesmente rezámos pelo regresso do sossego e da harmonia à aldeia e, graças a Deus, as nossas preces foram ouvidas.

Camila nasceu de boa gente, na nossa respeitada aldeia, anichada entre os dentes aguçados do penhasco da Baía da Boca do Inferno. Uma aldeia ainda de pé, com orgulho e oposição, após séculos de ira Atlântica. Camila cresceu no seu próprio mundo, subia e descia o escarpado colecionando penas de gaivota, chapinhava nos lagos de maré baixa, depenando os ouriços-do-mar, bem-me-quer, mal-me-quer, depois com as primeiras ondas da puberdade, ama-me, não me ama.

Alguns dizem que Camila sempre mostrara inclinação para criar sarilho. Certamente que existiram momentos de maldade, como quando espiava as pessoas nas retretes ou se empoleirava no peito das outras raparigas para lhes ajudar a criar musculatura nos seios. Mas quem nunca passou por tais momentos?

Sobretudo, culpamos o falecido Ti Bernardino Mudo por ter deixado a boca do poço escancarada ao céu. Camila nunca foi a mesma depois de ter sido pescada do quase enxuto poço. Encurralada no fundo desse buraco, com os cheiros das vigas de madeira apodrecida, do doce musgo e dos ares de mar salgado, a irritar-lhe o nariz, Camila aninhou-se na poça de água, a espreitar para um céu que se assemelhava a um buraco de agulha. Nem mesmo o murmúrio consolador das ondas encontrou os ouvidos da Camila. Gaivotas e ratazanas eram a única companhia. Gaivotas, aos saltos de viga em viga, lá no cimo, desalojando miolo de terra que lhe chuviscava no cabelo, e ratazanas, a correr-lhe pelo corpo em busca de perdidas espinhas de peixe.

Deus Nosso Senhor perdoe tais pensamentos, mas uma pessoa quase desejava que Camila nunca tivesse sobrevivido à queda no poço amaldiçoado. Fizemos buscas em terra. Lançámos as redes ao mar e passámos a Baía a pente fino, tudo na esperança de encontrar o corpo emaranhado no sargaço. Espreitámos nos decotes das rochas, mas sem sorte. Na companhia da lua e das estrelas, a mãe esperava-a na praia, carpia o regresso do corpo, como meses atrás já esperara pelos braços das brumas até que finalmente lhe devolverem o marido. Ao nascer do sol foi ela quem avistou a gaivota, atada ao balão verde, a esvoaçar sobre os rochedos. A Camila guardava um balão verde no bolso desde catraia, «um dia levantar-me-á ao céu como ao Ícaro», cantava ela.

A gaivota levou-nos à Camila e nós pescámo-la do poço húmido. Toda a gente desejava acariciar e beijar a rapariga. O Presidente da Câmara, Tadeu Ressaca, cheio de pompa e a tresandar a água de colónia, esgueirou-se da balbúrdia e recheou-a de beijos. A sua voz trovejante prometeu que daria o nome de um quelho da aldeia à Camila, paralelo ao do pai dela e logo que as ruelas fossem pavimentadas no próximo mandato. O Padre Batista abençoou Camila, assegurando-lhe que nas suas preces sempre soubera que ela descansava nas boas mãos de Deus. A Professora Dona Branca disse à Camila que rezou o terço todas as noites e, que desse dia em diante, Camila jamais se deveria preocupar com trabalhos de casa. Camila mexeu-se nervosamente e espirrou, dizendo-nos para acabar com a conversa pois ela farejava as nossas mentiras. Nós rimo-nos. É sabido que uma queda de tão alto mexe sempre com a cachimónia. Contudo, os seus olhos aterrorizados e fincados acima das nossas cabeças, bem como o espirrar persistente, passaram despercebidos no meio da algazarra do salvamento.

(…)

excerto                         ©paulodacosta

de:  O Perfume da Mentira,  LPD 2012  – paulo da costa (Autor)

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O Perfume da Mentira é um livro de catorze contos interligados que se desenrolam em duas aldeias carismáticas de Portugal e podendo mesmo ser lido como um romance em retalhos.

(2012) – Livro Papel (140p) Format: 196 x 126  – ISBN: 9789729954368

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