Satúrnia

ENTREVISTA A PAULO DA COSTA

Paulo da Costa é autor do livro “The Scent of a Lie”


Depois de conceder esta entrevista, foi galardoado com o prestigioso “Commonwealth Writers Prize 2003 (Best first book)-Caribbean & Canada Region”

Satúrnia – Em primeiro lugar gostaria que nos falasse um pouco de si, pois está um pouco arredio daquilo a que se chama a Comunidade Luso-Canadiana. Quem é, como veio parar ao Canadá, o que o faz escrever?

Paulo da Costa – Nasci em Luanda, Angola e aos cinco anos de idade os meus pais regressaram a Portugal. Vivi a minha meninice e adolescência em Vale de Cambra, na Beira Litoral. Naquela época, um vale verdejante e bucólico, terra de bom queijo e vinho verde.

As minhas razoes fundamentais para deixar Portugal não foram de caracter económico. Considero-me em muitas aspectos um refugiado cultural. Desde cedo que não me sentia bem em Portugal. A sociedade ultraconservadora daquele tempo, os valores calcificados e, a maior parte das vezes, extremamente retrogradas, asfixiavam-me e daí que as primeiras oportunidades de evasão que se me ofereceram, ou que eu próprio criei, foram imediatamente usadas para me distanciar da minha realidade regional; e, mais tarde, também da própria realidade portuguesa em geral. Deste modo, aos catorze anos, comecei a viajar à boleia por Portugal, em busca de novas experiências, novos ares e formas de respirar. Em breve essas incursões iriam trespassar as fronteiras do país e percorrer a Europa. Recordo que naquele tempo e, durante a primeira vez que desejei visitar um país estrangeiro com o intuito de explorar e conhecer outros costumes, outras formas de viver e ver o mundo, tinha dezassete anos e nessa altura não era possivel sair do país a não ser que se obtivesse um documento oficial que autorizasse  um menor a ausentar-se do país e a viajar só. A missão de convencer os meus pais a assinar o documento foi difícil, mas eventualmente bem sucedida e, a partir daí, as viagens multiplicaram-se e abrangeram territórios mais longínquos e culturas distintas.

Encontro-me sediado em Alberta desde 1989 e presentemente vivo em Calgary, no sopé das montanhas rochosas, numa cooperativa de habitação que posso definir como sendo uma pequena colmeia de diversos interesses humanos, sensibilidades e poder de criatividade; cooperativa essa  que também inclui escritores, cineastas, pintores, músicos, dramaturgos entre os seus residentes. Os meus interesses estendem-se para além da literatura e abrangem o teatro, o activismo social, a ioga, o cooperativismo, a agricultura biológica, a dança, o budismo, a música, o ambientalismo e o canto. Todas estas áreas têm sido, de uma forma ou outra, alvo do meu interesse e envolvimento nos últimos anos.

Sinto-me em casa no Canadá, quer num sentido prático, quer emocional e espiritual. É uma sociedade mais aberta, multicultural e daí que ofereça um grande dinamismo socio-cultural. Penso que vivemos num país onde o resto do mundo coloca grandes esperanças em relação às futuras possibilidades da coexistência humana. Vivemos num grande laboratório de experimentação social. Aqui estamos, oriundos de heranças culturais díspares, a aprender a viver juntos, a compartilhar um território geo-político, mas praticando doutrinas religiosas, valores espirituais muito diversos, enquanto que o resto do mundo observa atentamente, questionando a possibilidade de não só coexistirmos em harmonia com outras culturas mas também o facto de coexistirmos com o meio-ambiente e com as outras espécies animais, que  têm, tal como nós, o direito de usufruírem a sua existência. O mundo observa o Canadá para discernir se podemos evoluir e criar uma sociedade que materialize e traduza em realidade as potencialidades sócio-económicas e culturais do ser humano. Espero que comprovemos que tal é possivel e que inspiremos outros países a enveredar por caminhos semelhantes, caminhos de coexistência e tolerância para com o próximo.

Muito embora ainda exista muito trabalho a ser realizado em termos de encontrarmos plataformas e processos que nos sensibilizem para as questões e necessidades de tolerância racial, sexual, religiosa, assim como aspectos de integração e acessibilidade socio-económica de classes e etnias marginalizadas, inclusive sobre a questão dos povos autóctones deste país e do seu sofrimento, discriminação e invisibilidade, infelizmente ainda presentes nos dias de hoje. Apesar disso, penso que nos encontramos mais evoluídos que a maioria de outros países e que existe uma grande oportunidade para demonstrarmos que sim, que é possivel coexistirmos com as nossas diferenças, e que nos comprometemos a reduzir as desigualdades, a promover a tolerância e a sensibilidade para com o próximo.

Em termos da minha carreira como escritor o Canadá tem-me oferecido apoios e oportunidade extraordinárias. O apoio às artes, no Canadá, muito embora se encontre, presentemente,  sob grande pressão política e sofrendo uma rápida erosão no contexto das novas economias de cifrão e só cifrão, continua não obstante a oferecer incentivos e apoios que seriam inconcebíveis em Portugal, assim como inconcebíveis possivelmente na maioria dos outros países do mundo.

No que diz respeito à minha actividade literária no Canadá tenho recebido apoios e incentivos significativos.  Apoios e incentivos esses que seriam difíceis de conceber em Portugal, uma vez que aí o papel das artes ainda é fundamentalmente cortesia de mecenas ou por outro lado encontra-se sob a asa e à mercê de círculos restritos de poder e dificilmente penetráveis por serem uma extensão de estruturas socio-económicos onde abundam os vícios e os privilégios. Daí que muitas vezes se apoie não a arte mas a pessoa e o nome, o que por vezes resulta em apoiar a mediocridade e não a qualidade da arte produzida. O Canadá cultiva uma política de apoio às artes e compreende que é necessário apoiar a carreira de um artista quando no seu início. Quando se é um mero rebento a nossa fragilidade é maior perante o mundo.

O espaço, o mundo natural e prístino do oeste canadiano é um ingrediente fundamental do meu bem-estar e uma das razões da minha permanência neste pais. A minha experiência pessoal é de que no oeste Canadiano as pessoas são amáveis, abertas e de uma rara generosidade. A consciência cívica é notável e existem talvez poucas sociedades onde este valor seja cultivado tão conscientemente. Os espaços comuns pertencem a todos e de uma maneira geral quase todos se responsabilizam pela sua manutenção e preservação, na sua conduta cívica diária, ao contrário de outras sociedades onde os espaços públicos não pertencem a ninguém e são constantemente vitimas de actos de vandalismo e menosprezo. Isto não significa que tal não aconteça aqui, mas significa que são episódios mais raros e que ainda existe uma consciência que contraria essa tendência de desleixo e apatia para com os nossos deveres cívicos e responsabilidade de criar bem-estar social, ingrediente essencial para uma sociedade que preza a sua qualidade de vida.

No que diz respeito ao que especificamente me trouxe ao Canadá, bem…Foi uma pequena, não obstante comum, condição cardiovascular que afecta com particular intensidade os adolescentes e que dá pelo nome de paixão amorosa. Tudo começou em 1985 enquanto ainda estudante na universidade de Coimbra. Por ocasião de umas férias na Turquia, conheci uma Canadiana, e após uma posterior visita sua a Portugal, apaixonamo-nos. Vivemos uns tempos em Portugal, seguindo-se uma breve estadia no Canadá, assim como dois anos a viajarmos de mochila às costas pela Ásia, Austrália e Oceânia, trabalhando pelo caminho, até que me decidi a lançar raízes no Canadá, onde cheguei num frio Dezembro e pela primeira vez na vida me deparei com temperaturas negativas e neve. Para consternação da minha família deixei tudo e todos e vim viver para este frigorifico enorme. Mas imediatamente adorei a neve e as actividades de recreio típicas  do inverno. Desde o esqui de fundo e patinagem no gelo até às raquetes de neve.

Satúrnia – Sabemos que tem colaboração literária espalhada por jornais e revistas em todo o mundo. Também já alcançou vários prémios literários em língua inglesa, entre os quais o prestigioso prémioCannongate 2001 para o conto (Festival Internacional do Livro de Edimburgo – Escócia). É também o director da revista Filling Station publicada em Calgary.
Quando é que começou a escrever em inglês? É uma necessidade interior ou, sendo o inglês presentemente a “língua franca” , viu ser esse o meio mais apropriado para alcançar uma maior divulgação?

Paulo – Comecei a escrever em inglês em 93 como necessidade de me encontrar a mim próprio, de compreender as subtilezas do mundo interior, frequentemente desprezadas e atropeladas pela azáfama e aceleração da vida actual. A escrita surgiu como necessidade de redefinir a minha relação com o mundo exterior e pragmático enquanto descoberta de sentido no meu percurso pessoal, na minha contribuição particular nesta passagem pelo mundo. A escrita partiu de um processo interior, de cariz privado e, com os anos, evoluiu e eventualmente transbordou para o espaço publico e para o mundo. Em Portugal, e na minha adolescência, tinha rabiscado umas coisas aqui e ali, mas nos quinze anos que se seguiram desleixei este aspecto criativo e foi necessário um grande abalo emocional para me acordar e reencontrar comigo mesmo e com uma das minhas paixões de vida: a palavra escrita.

Comecei a escrever em inglês por mera coincidência contextual geográfica. A minha língua de vivência diária era e é o inglês e daí que naturalmente a minha veia criativa assim se expresse. Para mim não fazia sentido escrever em português já que as minhas reacções á vida, ao quotidiano, eram sentidas em inglês e daí o fluir natural da escrita para a língua de vivência diária. O facto de a minha família se encontrar em Portugal e de eu também não ter contacto com a comunidade portuguesa de Alberta colocou a língua portuguesa numa situação secundária em termos da forma como digiro as minhas experiências, imagino os meus mundos literários, expresso as minhas visões do mundo. Gostaria de salientar que o meu desfasamento com a comunidade portuguesa não se deve a uma negação das minhas origens lusas, uma vez que sempre me orgulhei de ser português; este facto deve-se simplesmente ao meu contexto individual e aos meus interesses pessoais que, em geral, parecem encontrar-se um pouco desfasados das preocupações ou interesses centrais dos portugueses. Talvez por isso não encontre Portugueses através das actividades a que me dedico ou que me interessam. Seria inconcebível para mim inglesar o meu nome, por exemplo. Nos meus círculos pessoais, as pessoas sabem que sou português. O lançamento do meu livro em Victoria, BC, terá Sara Marreiros, uma luso-portuguesa que canta o fado com uma certa influência jazzística; em Calgary, o lançamento do livro teve petiscos portugueses após a leitura, e o público adorou; só sobraram tremoços! Recentemente regressei á língua portuguesa e recomecei a escrever em português, circunstância essa que atribuo ao facto de passar mais tempo em Portugal e de estar em contacto mais assíduo com a língua. Em suma, não escrevo em inglês como estratégia comercial para abranger mais mercados literários. Presentemente escrevo em ambas as línguas, muito embora a prevalência ainda seja do inglês, uma vez que é a língua que continua a ocupar mais espaço na minha vivência diária. Em 2004 uma editora portuguesa irá publicar um livro meu de poesia em português.

Satúrnia – Fale-nos agora do livro The Scent of a Lie. Sabemos que é um conjunto de “short stories”. Qual é o tema fundamental da obra?

Paulo – O livro The Scent of a Lie é um conjunto de catorze contos entrelaçados e que poderá ser lido como um romance em fragmentos, já que as personagens deambulam de conto para conto. As personagens principais, na minha opinião, acabam por ser as duas aldeias retratadas no livro; livro que acaba por ser um romance de lugar, onde a geografia e a entidade social e física que é uma comunidade, acabam por demonstrar alma própria e as aldeias emergem como  protagonistas principais.

O livro tem tons de realismo mágico e algumas das personagens têm visões e existências peculiares. A Camila Penca após ter caído a um poço descobre que tem o dom de detectar mentiras pelo cheiro das palavras proferidas pelos aldeãos. Este facto desequilibra de imediato a dinâmica das relações sociais e pessoais da aldeia na sua existência diária; aldeia essa que procurará a todo o custo uma solução que preserve o status quo prévio. Temos também o Florindo Ramos, que mais facilmente se identifica com o mundo natural do que com a sua própria espécie e todas as suas tendências de cegueira de autodestruição. Em consequência desta atitude, o Florindo opta então por se casar com uma árvore, facto que terá consequências imprevistas para a aldeia. Temos também o Francisco, pastor, que durante as suas incursões pela serra descobre pedras que dão à luz outras pedras. Tal achado convence-o que encontrou o local onde o mundo nasceu. Essa descoberta terá consequências imprevisíveis para a aldeia. Existem muitas mais personagens com as suas idiossincrasias e existências peculiares, mas posso enumerar e considerar estes que referi como sendo uma amostra do tipo de personagens contidas no Scent of a Lie.

O livro tem uma variedade imensa de temas. O tema central, todavia, talvez seja as questões e as experiências de comunidade. O que é uma comunidade? Como surge? É cultivada ou espontânea, consciente ou inconsciente? Dinâmica ou fechada? Como respondem os seus intervenientes a acontecimentos que introduzem a mudança, a algo que rompe com padrões confortáveis e estabelecidos? O livro tem preocupações que advém da criação, preservação e destruição do conceito de comunidade. O que temos em comum, o que nos diferencia e, não obstante as diferenças existentes, onde procuramos e como procuramos esses pontos de encontro que permitem a possibilidade de coexistir. Viver e deixar viver. O livro debruça-se sobre a trajectória, extensão e flexibilidade desses espaços entre os extremos, assim como o alargar dessas mesmas fronteiras e desses mesmos extremos . O livro aborda a primeira comunidade que é a família, começando por abordar a problemática da coexistência no seio familiar , as questões do respeito ou  desrespeito pelas diferenças, a dinâmica dos poderes no seu interior, a tolerância e toda a variedade de sentimentos e manifestações afins, passando depois pela coexistência dentro da comunidade de amigos ou vizinhos, até a círculos cada vez mais amplos. No dia a dia existem diversas comunidades pelas quais passamos ou pertencemos; elas sobrepõem-se. Muito embora o livro se debruce sobre preocupações especificas de duas aldeias portugueses abandonadas num tempo passado, essas preocupações continuam, na minha perspectiva, a ser perenes a todas as comunidades e, deste modo, os contos adquirem caracter universal.

Satúrnia – Como sabe, a Comunidade Portuguesa do Canadá irá em 2003 comemorar os 50 anos da sua chegada oficial ao Canadá? Gostaria de dizer algum coisa a propósito deste acontecimento?

Paulo – Gostaria de ver a comunidade Portuguesa mais envolvida nas lides e actividades do mundo cívico, político e artístico canadiano. Uma comunidade mais participativa na criação e na definição do que é ser Canadiano e que tipo de sociedade queremos construir para o futuro. Democracia pressupõe participação no processo democrático e nas suas instituições. A democracia não é um espectáculo de audiências passivas como o futebol ou o teatro ou o cinema. Penso que chegou a hora de darmos um pouco mais a este país do que as horas de trabalho a que estamos cingidos, para o bem das nossas famílias, dos nossos negócios e das nossas instituições e associações comunitárias portuguesas. Talvez seja este o momento em que acreditamos que temos algo a oferecer à sociedade canadiana em geral e participemos de forma mais alargada na vida cívica e cultural, porque no aspecto económico temo-lo feito muito bem. Chegou a hora de intensificarmos os nossos deveres cívicos e a responsabilidade de criar bem-estar social, ingrediente essencial para uma sociedade que preza a sua qualidade de vida, quer para o presente, quer para cultivar e preservar no futuro.

As novas mitologias estão a ser criadas, a expressão da particularidade da herança sociocultural que trazemos no sangue ao escolher este país continua presente. Encontramo-nos aqui porque acreditamos que poderíamos melhorar a nossa condição de vida e, no meu caso, de que poderíamos contribuir para uma visão de sociedade mais aberta e igualitária. Agora, após 50 anos, parece que a comunidade Portuguesa encontrou estabilidade económica. Creio, portanto, ter chegado o momento de sair da retracção e apatia em que se tem refugiado. O Canadá espera-nos. Talvez agora possamos finalmente afirmar que, de facto, desembarcamos…

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