tão longe, tão perto

 

tão longe, tão perto

à B.Q. e à A.D.

 

o peso da tua cabeça exerce pressão no meu peito, a respiração é forçada após uma estrofe sobre “amantes que partiram um amor de porcelana rechonchudo como a baleia,” e, apesar da tua mão descansar na minha coxa moves-te como se acordasses de um sonho onde poderias ter estado com outro qualquer. todavia encorajas-me a prosseguir, há meses que peço bocas emprestadas, as minhas palavras secaram no poço dos anseios. imagino que uma palavra tece os teus sonhos, caudal que nunca secará – “não pares, adoro o sussurrar da tua voz” – a facilidade com que pronuncias o amor quando lá fora o inverno deixou cair a sua pedra tumular e um choupo espreita pela janela; no jardim, encharcado de sombras, nada cresce, tão pouco o vento. raízes deslizam pela superfície; no gelo passos apressados soam a ossos esmagados, o quintal esconde-se sob uma colcha branca, os pés doridos estalejam, esperam a primavera. este verão as flores foram de novo trocadas, por um concerto em banff e uma espinha dorsal de baleia com uma vista maravilhosa – nem uma única semente guardada. estou desesperadamente sequioso e mexo-me, o esqueleto de uma folha esquecida raspa. tu respiras, e da minha mão desembrulho um dedo de cada vez. não é um gesto terrível mover-me assim tão lentamente agora que sei o que não quero. no instante que toco na maçaneta da porta sentas-te na cama como se os teus sonhos se associassem a portas destinadas a fecharem-se; “não partas,” murmuras. eu regresso com uma garrafa de aqua libra, dois copos e este poema intacto para tu abrires.

 

(…)

excerto                         ©paulodacosta

de:  notas de rodapé,  LPD 2012

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