Uma Aragem de Memória

 

Florindo Ramos adorava árvores, e sempre adorara, desde que num inverno turbulento, quando rapaz ágil, saltando de pedra em pedra, procurando musgo pela orla do rio Caima, escorregara, caindo na rodopiante corrente, «Eu cá teria afogado», contava Florindo às crianças que o rodeavam e atentamente escutavam as suas histórias após o fim das aulas. Com ternura, Florindo acariciou as verdejantes e lustrosas folhas dos rebentos que cresciam sob a copa da mãe ginkgo. Florindo continuou, dirigindo-se às crianças e aos rebentos, «Remei com os braços, mas sem sorte. Afundei num fechar de olhos. Foi então que a minha ginkgo se arqueou, quase pulando da terra», indicava ele com um dedo as raízes expostas lembrando pernas, «e salvou-me, com um varrer dos braços». Com delicado carinho, Florindo beijou a rubra casca da árvore. Por cima das cabeças das crianças as folhas menearam-se como se acanhadas.

Desde esse dia, sempre que o pai se recolhia ao quarto para rezar os Mistérios Sagrados do terço noturno, Florindo saltara da janela do quarto para os ramos da ginkgo, essa árvore querida da família e plantada pelo seu bisavô depois de regressar lá dos mares do Oriente.

Adormecia enroscado aos pés da árvore, o rio Caima a deslizar e a rumorejar aos seus pés. Pressionando as palmas da mão no tronco, ele sentia as pulsantes raízes da ginkgo bebendo a seiva das profundidades da terra.

De manhã, despertado pelas árias imaculadas dos rouxinóis de peito amarelo, «Piu…Piu…Piu… Pi…Pi…Pi… Piuuuuu…Piuuu…», Florindo levantava-se e, espreguiçando-se, agarrava flores, prestes a desabrochar, levando-as até às narinas e perfumando os pulmões com a fragrância. Bocejava e esfregava as folhas entre as mãos para refrescar a pele. A árvore exalava. Florindo inspirava. Ele exalava, a ginkgo inspirava. Uma conversação que duraria uma vida.

Ti Clemente assim como um grande número de aldeãos, mostravam rancor à vida infrutífera do Florindo Ramos. Ao nascer do sol, quando Ti Clemente se encaminhava para os campos e suava até que as últimas migalhas de luz se sacudissem do céu, Florindo sentava-se nos dias, usufruindo o sabor da sombra, quer em folguedo, quer em torpor.

«Devíamos era pôr o paleio dele a bom uso nas leiras de milho, atrás dos bois, convencendo as bestas a bulir!» bufava Ti Clemente entre dentes, à frente dos bois, aguilhoando-os.

«Deixa o cachopo em paz. Ele está embeiçado pela avenca», desculpava Ti Clarissa seguindo na alçada do marido. À socapa,  de tempos a tempos, ela trazia broa e outros restos ao Florindo. «Ele é mais feliz que qualquer um de nós. Vê o carinho que ele lhe dispensa», indicou em direção ao Florindo que varria o tronco da ginkgo com uma vassoura de giesta.

Florindo nunca respondia à língua afiada do Ti Clemente. Procurava refúgio do calor de verão, debaixo da sua ginkgo cujas folhas em leque oscilavam levemente, agitando a brisa e refrescando o ar.

De nariz na erva, estendido debaixo da ginkgo, Florindo descobriu a revelação de que o ar continha memória. A revelação deu-se quando não contemplava nenhum pensamento em especial. Observava uma abelha a recolher pólen, quando sentiu as palavras e as imagens cristalinas da sua falecida avó a povoaram-lhe a mente. Florindo recordava os dias em que juntos passearam nos campos ou na orla do rio Caima, a colher ramos de violetas silvestres dos combros soalheiros.

Florindo apercebeu-se que o mesmo ar que em tempos passados habitara nos combros ou enchera o peito da avó, bulia agora também no seu peito. Ele sorriu e estalou a língua.

«Memória é o ar que respiramos», exclamou em voz alta, colocando uma folha de erva entre os dedos e soprando-lhe, um assobio soltou-se. Florindo imaginava o ar dos pulmões a encher as gentes com a memória das suas vidas. E no instante em que os pulmões se esvaziassem a vida cessava. As pessoas nunca mais se recordariam de nada; nem de quem eram, nem dos habituais maus caminhos do passado. A memória desaparecia nas asas do último suspiro, deixando atrás o vazio do esquecimento, da morte.

(…)

excerto                         ©paulodacosta

 

de:  O Perfume da Mentira,  LPD 2012  – paulo da costa (Autor)

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