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    O Papa – conto de David Albahari

                                                       O PAPA David Albahari Quando o Mendoza se benze perante as câmaras de televisão, à saída do relvado, o Papa, empolgado, endireita-se na poltrona. Olha ao seu redor, mas os cardeais dormem serenamente nos seus confortáveis cadeirões. O Mendoza desaparece do ecrã. Nesse instante, o Papa sente de novo o peso da solidão. Entretanto o jogo continua, e ele sucumbe às paixões irracionais do futebol. … O Papa gosta de conversar com os soldados. Eles contam-lhe histórias de lugares distantes que nunca visitou. Muito gostaria de ser soldado – pensa o Papa, detendo-se em frente das tropas em parada. Os soldados chegaram de longe. Estão sujos, empastados com…

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    Margaret Atwood – um poema

      Margaret Atwood nasceu em Ottawa, Ontario, Canadá, em 1939. Uma das escritoras mais conhecidas  nas letras canadianas. Poeta, romancista, ensaísta, crítica literária e  feminista, Atwood já recebeu inúmeras distinções nacionais e  internacionais incluindo o Booker Prize.   Espargos Esta tarde um homem inclina-se sobre os pães e a manteiga encaracolada, e confessa-me tudo: duas mulheres amam-no, ele também as ama, que deveria ele fazer?     O sol cai polvilhado pelo imperceptível e castanho ar urbano. Eu vou sofrer com isto: corar, ganhar bolhas de água ou então cancro. Petisco espargos à mão, ele atira-se para a descrição. Está desesperado, enjaulado no seu próprio frenesim. Tem migalhas na barba.…

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    Michael Ondaatje – poema

        O DESCASCADOR DE CANELA          Michael Ondaatje                         tradução paulo da costa   Se eu fosse um Descascador de canela cavalgaria a tua cama e espalharia o pó amarelo da casca na tua almofada.   Os teus peitos e ombros tresandariam nunca poderias passear pelos mercados sem a profissão dos meus dedos a ondular sobre ti. Os cegos tropeçariam seguros de quem se aproximavam muito embora te banhes sob as caleiras, a monção.   Aqui ao cimo da coxa neste prado liso circunvizinho ao teu cabelo ou ao vinco que te talha as costas. Este tornozelo. Serás conhecida entre estranhos como a esposa do descascador de canela.  …

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    Richard Harrison – poema

      Richard Harrison tem cinco livros de poesia publicados. O seu último livro, intitulado Worthy of His Fall foi publicado em 2005. Richard vive na cidade de Calgary, em Alberta, onde é professor de Literatura Inglesa e Escrita Criativa.   O Meu Pai Visita o Cirurgião   Dentro de cada dia, espero pela morte do meu pai. Comigo espera este livro, redigindo-se a si mesmo. Como todos os livros, este livro, incide os seus olhos frios para o mundo feito à sua imagem. Segura-me a mão, mas prefere fechar-se como todos os livros assim o preferem. Mesmo a Bíblia, esse livro de esperança, dizimou todos os seus leitores só para…

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    Gary Geddes – poema

      Sandra Lee Scheuer ( Assassinada na Universidade do Estado de Kent, a 4 de Maio de 1970, pela Guarda Nacional de Ohio )   Gary Geddes   Poderias tê-la encontrado num sábado à noite a talhar círculos exactos, pela esquerda, no rinque de patinagem Moon-Glo, ou a caminhar apressada   entre a cidade universitária e a casa verde de dois andares, onde o quarto estava sempre arrumado, a cama feita, os livros a confraternizar nas estantes.   Ela não arremessou pedras, estudava filosofia ou incendiou edifícios, embora os seus conhecidos afirmem que ela detestava guerra, tinha ouvido falar do Camboja.   Na realidade ela usava um nadinha de maquilhagem,…

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    Patrick Lane – poemas

      BELEZA Patrick Lane   Outrora eras bela mas de tal já não te recordas o que te torna ainda mais bela. As mulheres mais belas são aquelas que não o sabem. São elas a razão pela qual os homens se deitam ao seu lado no rigoroso respeito da sua graça, desejando pertencer a tal desconhecimento.         INVERNO 18                        Patrick Lane                         Nua no quarto vazio a jovem oferece-se. Tal insinuação impossível, tal dança desesperada, tão inadequada só inocência para lhe oferecer. A sua ternura, tão desastrada sem matreirice, deixa-lhe duas possibilidades: transgressão ou transformação. Um ingénuo fiasco. Como ele se faz santo para tolerar o…

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    Weyman Chan – dois poemas

      A RELIGIÃO DA CAPITULAÇAO                          Weyman Chan          XVI.   Fui arrastado de encontro ao mistério das marés, invisíveis magnetismos e corpos que não se sabem entregar. É fácil esquecer as razões entrelaçadas que nos tecem da poeira, para depois nos ameaçar de ser esmagados de regresso à poeira, e por isso tenho simplesmente desejado observar o brilho em redor da tua face, a qual possui as suas próprias razões para aqui me prender.   Quis que a luminosidade no teu rosto entrasse no meu como se alguém, para além de Deus, nos tivesse criado de novo, piscando o olho à conspiração reles deste leito e à tua pele…

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    rajinderpal s. pal – dois poemas

      superfície            rajinderpal s. pal   enquadrados na porta dos fundos num aguaceiro relâmpagos erráticos revelam os seus corpos   ambos desejam ser transformados desejam biselar o espaço reduzido deslizar de encontro ao outro tolerar o silêncio e comunicar numa nova língua   vê-se um primeiro plano de gotas de chuva embatendo com força no terraço de madeira seguindo-se outro de pingos a salpicar até aos tornozelos e um primeiro plano de um braço e uma perna uma superfície macia a dilatar-se   eles exauriram as suas histórias as que restam – ainda não estão preparados para partilhar   o carvão activo na bisnaga na boca do irmão  …

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    Agnes Walsh – dois poemas

      Agnes Walsh nasceu em Placentia, Terra Nova, Canadá, em 1950. Poetisa e dramaturga, é autora de dois livros de poesia: In the Old Country of My Heart (1996), Going Around with Bachelors (2007). Viajou extensamente no Canadá, Estados Unidos, Portugal e Irlanda. Alguns dos seus poemas estão traduzidos em português por paulo da costa.   Al-Gharb É uma noite índigo e recheada com o aroma de flores mornas, um manto de cheiro pelo ar da noite que desliza sob a minha língua, para o teu cabelo.   Subimos a calçada de pedras polidas para o centro de Silves, velha capital mourisca de Al-Gharb, e a noite embrulha, envolve, transporta-nos para…

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    Shane Rhodes – dois poemas

    Alegação Shane Rhodes   Eu imagino o meu pai um deus cinzento que imaginava a sua sede como um músculo que endurecia e descontraía pela força da vontade     era um falhado alquimista transformando vinho em sangue o ilusionista que serrou, um por um a sua família em dois    o carpinteiro que desmantelou a sua casa     o bêbado que não conseguia foder    Eu imagino que o meu pai era o traço     um cálice do k-mart  a vazar rum   era a navalha da intriga atravessando a família anestesiada   era aquele que extraía lágrimas da multidão como uma bomba estomacal   o homem que na cave bebeu e vomitou durante dois meses e depois…