Ensaio

Na Lavra da Palavra

(excerto)

paulo da costa

 

Um dos intervenientes num encontro de escritores no qual participei pediu desculpas por se encontrar num palco, onde como escritor era objecto de reconhecimento e distinção, enquanto a audiência se encontrava  segregada e anónima na plateia. A pessoa expressou o seu desencanto pela situação, alegando que não deveria existir distinção entre os escritores e o público uma vez que “toda a gente pode escrever.” Deste modo perpetuava-se a artificial superioridade burguesa das artes sobre o cidadão. “Somos todos iguais e não existe necessidade de se criar esta classe demarcada de escritor uma vez que qualquer um de vocês pode escrever e poderia aqui estar nesta capacidade.”

Independentemente da bem intencionada e generosa motivação do interveniente, demistificando e incentivando a participação cultural do cidadão, encorajando a auto-expressão através das artes, tal afirmação desperta questões inerentes à presente imagem e definição das artes, e da arte da escrita literária em particular.

 

Não tive oportunidade de aprofundar a questão durante o encontro, dado o extenso número de participantes e dados os parâmetros de intervenção se restringirem a cinco minutos por pessoa. Chegada a minha vez de intervir, três horas mais tarde e ao encerrar do serão, não senti ser esse o momento oportuno para ressuscitar e aprofundar a questão, ciente que o contexto do encontro não se coadunava com tal intervenção microscópica. Os bocejos de fazer inveja a um hipopótamo pautavam a respiração da sala e eram indicadores do rumo a incutir à noite.

 

A afirmação proferida abriu-me inúmeras encruzilhadas de destinos tão diversos como indeterminados. Apresentou-me uma pletora de possibilidades quanto ao seu enquadramento, dificultando a avaliação das suas intenções e consequências. Todavia, como contemporâneo costureiro de palavras e inventor de factos, realçando assim os contornos da verdade, tal investigação é me importante no intuito de encontrar o meu presente posicionamento e interpretação sobre o ofício e arte da escrita literária. Agradeço a afirmação pois desencadeou a reacção que me permitiu ponderar e investigar algumas das suas possíveis trajectórias. Permitiu reencontrar-me com velhos conceitos, averiguar novos significados e implicações, renovando assim a minha actual postura face à textura do mundo das letras e ao padrão qualitativo da sua literatura.

Parece-me então importante investigar este implícito pêndulo de oscilações extremas face à arte, percepção tanto interna, como porventura externa, do ofício de escritor. Esse pêndulo de oscilações parece alternar desde um sentido e percepção elitista até ao limiar oposto de desprezo pela arte.

 

A postura elitista é arrogante sendo necessário demistificá-la. Ao erigir barreiras ao processo criativo, defende territórios de exclusividade e superioridade absurdos, vestígios de um sentido de classe arcaico. Impede assim uma participação alargada no diálogo da linguagem artística e dificulta uma reciprocidade mais estreita entre criador e aficcionado das artes. Deploro o sentido elitista que cultiva a imagem do escritor como um ser superior e privilegiado, íntimo com o divino, vivendo numa dimensão reservada aos eleitos e abençoados pelo toque mágico da musa. A profissão de escritor não contém segredos impenetráveis, e como as demais profissões requer indivíduos que se dediquem a aperfeiçoarem a respectiva arte e inerente técnica, a cultivar a inspiração, a treinar a perseverança, a fortalecer o seu compromisso com a disciplina e a afiar a sua visão crítica. A arte recompensa os indivíduos interessados em cultivar a tenacidade e a motivação necessárias para sobreviver o exílio inerente ao universo criador da escrita. O elitismo deve ser desafiado, pois aliena todos os intervenientes neste processo cultural e criativo. Estabelece um fosso emocional e psicológico entre a arte e o potencial apreciador ou apreciadora da arte, atrofiando a magnitude da sua expressão e consequentemente colocando em questão a sua eficácia como instrumento cultural de intervenção e, quem sabe, talvez mesmo ameaçando a sua própria sobrevivência. Como se os códigos de execução, as suas complexas representações literárias, fossem segredos de domínio restrito a eleitos, os quais deteriam em exclusivo as chaves de acesso. Todos os prestidigitadores possuem os seus truques – as suas técnicas. Lamentavelmente alguns protegem esses truques zelosamente, receosos que o encanto e o fascínio da escrita se desvaneça uma vez revelados os traços da sua arquitectura.

É importante encorajar as pessoas a participarem no processo criativo. Inúmeras disciplinas artísticas estão potencialmente ao nosso alcance, caso queiramos investir tempo e energia na aprendizagem das suas técnicas e no cultivo da mente artística. Todavia isto não significa que todos tenhamos capacidade para pegar num pincel, num teclado, num cinzel e elaborar um trabalho sofisticado com mérito artístico. Como qualquer ofício, as artes requerem tanto aptidão, perseverança e prática, quanto uma boa dose de dom e inspiração. Ingredientes que o tempo, com menor ou maior acerto e sucesso, se encarrega de hierarquizar, distinguindo os medíocres artistas dos competentes, os artistas respeitados dos imortalizados.

 

Por outro lado reduzir o ofício de escritor a um lugar comum, desvalorizando e desprezando a arte, certamente contribuirá para exacerbar o próprio desprezo que as ideologias das novas economias de mercado desejam imprimir ás actividades artísticas profissionais. A desvalorização da actividade artística padece de um acelerado processo de desprezo governamental e popular. Nesta ideologia de mercado em que vivemos, tanto políticos como economistas desejam que a produção cultural seja submetida a avaliação por padrões maioritariamente ou meramente económicos. Os que prescrevem esta ideologia de ditadura económica parecem não compreender que a matemática da arte reside em equações subjectivas de relações e percepções humanas, não sendo assim adequado inseri-las numa avaliação bruta e grosseira da sua contribuição positiva ou negativa ao funcionamento do motor económico. Os fins específicos da arte, as suas funções, não devem ser avaliadas por uma medida ideológica de valor único: o quantificável e demonstrável num gráfico. A cultura contém relações humanas de valor emocional, intelectual, espiritual e social que não se coadunam unicamente com medidas económicas padrão, isto para lá dos resultados culturais da arte serem complexos, cumulativos e revelando-se a amplo prazo. Um prazo que excede a visão política de foro imediatista, facilitista e de vista míope. A questão do determinismo económico contempla-se e implementa-se dada a profunda anemia cultural, espiritual e emocional de que sofrem os nossos políticos e administradores. Tal como o prazer de criar um filho não depende e se avalia pela sua imediata ou futura mais valia económica para o agregado familiar, também a produção cultural não deve ser avaliada por tais padrões deterministas económicos de lucro imediatista. O corolário desta filosofia económica manifesta-se na percepção da arte como mero produto de troca entre consumidor e produtor. Um utilitarismo crasso.

Se por um lado acredito que certo grau de desprezo que se abate sobre as artes se deva atribuir às pressões de índole ideológicas externas, por outro acredito que se deva igualmente atribuir à incapacidade das próprias artes se renovarem e de descobrirem novas formas de sensibilizarem e seduzirem as suas audiências. Mas isso será pano para uma segunda manga desta vestimenta e destas linhas com que me cozo. Hoje concentrar-me-ei na investigação sobre as razões externas que questionam o valor da arte.

 

1.         o domicílio da literatura

As palavras igualitárias dessa noite, à primeira vista inócuas e inofensivas, “qualquer um de vocês pode escrever e poderia aqui estar nesta capacidade de escritor,” foram porventura aconchegantes para a plateia pois procuraram diluir barreiras que determinados rótulos lamentavelmente perpetuam. Esse imediato estender da mão cai bem. É acolhedor e hospitaleiro. A minha casa é a sua casa. Sim… e não. Numa análise mais cuidada tais palavras só caem bem se se é genuíno. Se estamos a partilhar de algo que na verdade partilhamos igualitariamente. O facto é que depois da visita espera-se que o convidado regresse à sua casa, quer tenha casa quer não. Nesse caso o gesto hospitaleiro e de boas intenções é somente isto: a expressão de uma intenção quixótica que se planta no ar, tão só simbólica ou alegórica. Um conjunto de palavras que oculta uma demagogia consciente ou inconsciente. Na realidade e no contexto deste encontro de escritores o aspecto mais próximo da verdade seria o facto de que a grande maioria dos presentes partilhasse da paixão pelas letras, pela literatura. Cada pessoa oriunda de territórios com interesses e aptidões distintas: uns como escritores, outros como leitores, outros ainda como editores, talvez uns poucos como mecenas, assim como diversas combinações desses interesses, e quem sabe outros mais, que tecem a grande teia da literatura. Isto para ressalvar que as presenças políticas na plateia poderiam ter motivações demarcadas do simples amor à literatura e ao ofício da escrita, muito embora esse facto em si não exclua a possibilidade da existência de raros políticos que possuam um genuíno interesse literário e apreciação pelo seu envolvimento e contributo à arte. Outro segmento da audiência estaria presente, não por que lessem ou apreciassem literatura, mas porque seria uma actividade social e estariam presentes para apoiar conhecidos, familiares ou simplesmente para serem vistos, uma vez que as artes ainda detém prestígio social e resíduos de elitismo e egotismo aquando das suas manifestações públicas e restritas. Ou seja, muitos desses presentes vieram visitar a casa da literatura mas não residem na casa da literatura.

 

No entanto pergunto-me: caso o encontro fosse de cirurgiões ou de marceneiros, ou mesmo de jogadores de futebol, abanaria a audiência a cabeça, concordando com a afirmação de que de facto não existia distinção entre esses profissionais e os demais cidadãos e que todos poderiam operar as cataratas de um paciente, jogar pela selecção do país ou talvez mesmo construir uma escrivaninha talhada em mogno? Ora bem, eu sei dar uns chutos na bola, até posso marcar uns golitos de quando em vez aos sábados de manhã, com uma dúzia de amigos ensonados a perseguir saudades dos velhos tempos, correndo atrás do mundo em forma de cabedal, no entanto no que diz respeito à cirurgia, para além de extrair farpas e silvas dos dedos, nunca me aventurei a intervenções mais complicadas, daí não me poder pronunciar. Sei dar umas marteladas num prego, acerto quase sempre no dito, e muito embora um pouco empenada até construí a minha mesa de jantar, mas isso não significa que possa arquitectar algo de construção sólida, bem pensado e de rara beleza com apreciável grau de consistência. A minha mesa encontra-se numa permanente vénia de solidariedade à torre de Pisa. Ou seja, jogo futebol mas não sou futebolista, sei dar umas marteladas mas não sou marceneiro e consideraria uma afronta a essas artes dizer tal. Sou um curioso e amador nessas disciplinas. E esses artistas, orgulhosos da sua profissão, dos seus méritos e contributos, possivelmente não se sentiriam honrados e apreciados se lhes reduzissem as respectivas artes a um lugar comum em que de súbito qualquer um poderia tornar-se num profissional qualificado e respeitado.

Uma das possíveis interpretações contida na afirmação efectuada nesse encontro contém a premissa de que quem escreve é escritor. Imbuída na afirmação parece estar a presunção de que escrever é fácil. Que para se merecer o estatuto de escritor basta… escrever, ou seja, manusear as ferramentas e os materiais de trabalho literário sem questionar a necessidade de nos debruçarmos sobre o resultado final, ajuizando assim a destreza desses manuseadores do alfabeto. Ou que por outro lado é tão fácil ser escritor que desde que se coloque um pelotão de palavras em parada “tá feito“, não há que falhar fuzileiro é sempre em frente e disparar.  Esquecendo-se que do disparar ao disparatar a distância é magra. Um ta-dinho de nada. Nesta premissa não se inclui a medida e o rigor de qualidade. Escrever talvez seja mais fácil para uns que para outros. Mas, onde estão as exigências de qualidade que demarcam qualquer actividade? O profissionalismo não depende tão só da instável inspiração. Imagine-se o marceneiro: Desculpe, ó patrão mas os seus armários não estão prontos, e nem sei quando, já lá vão dois meses que espero a chegada da inspiração do armazém central. Deve ter-se extraviado. O profissional domina as técnicas do ofício utilizando-as como e quando as deseja, controla a sua matéria e tem no bolso as chaves que dão acesso ao seu talento. Abre a portas da inspiração a seu bel-prazer. O amador atira muitas setinhas ao alvo e de vez em quando acerta no pontinho vermelho. É sorte. Acontece até aos piores. O profissional evolui na sua arte e os alicerces da sua técnica são o trampolim para saltos de espontaneidade e inspiração cada vez mais audazes.

Será que nos esquecemos que o estatuto de escritor pertence aos que cumprem a exigência de escreverem consistentemente bem? Esta medida abarca qualquer escrita, desde a literária, passando pela técnica e pela jornalística até à crítica e à académica.

Pergunto-me, o que levaria a audiência a morder esta isca de falsas promessas de “qualquer um pode escrever.”? Lembra-me dos cenários do Faroeste em que se colocam as cabecinhas no buraquinho e… voilá tornamo-nos imediatamente no caubói mais destro do Oeste, vestidos a preceito, de coldre, estrelinha no peito e chapéu de vaqueiro. E assim, com a rapidez do clique da fotografia, mudamos radicalmente de vida, compromissos e de sensibilidades, e até possuímos a foto para comprovar e impressionar os bisnetos ao expiar das nossas vidas. O carnaval chegou às artes. Hoje vou-me mascarar de poeta e subir a um palco.

(…)

©2000 paulodacosta

excerto e versão portuguesa de um ensaio incluído no livro:  Para lá das Touradas e do Hóquei no Gelo – A Arquitetura da Multi-Nacionalidade,   Ensaios sobre cidadania, literatura e linguística, ( Beyond Bullfights and Ice Hockey 2015 )

Livro e ebook serão vendidos a partir de Abril de 2015 pelas Livrarias da Amazon nos EUA GB Espanha Alemanha

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