Margaret Atwood – um poema

 
Margaret Atwood nasceu em Ottawa, Ontario, Canadá, em 1939. Uma das escritoras mais conhecidas  nas letras canadianas. Poeta, romancista, ensaísta, crítica literária e  feminista, Atwood já recebeu inúmeras distinções nacionais e  internacionais incluindo o Booker Prize.
 
Espargos
Esta tarde um homem inclina-se sobre
os pães e a manteiga
encaracolada, e confessa-me tudo: duas
mulheres amam-no, ele também as ama, que
deveria ele fazer?
 
 
O sol
cai polvilhado pelo imperceptível
e castanho ar urbano. Eu vou
sofrer com isto: corar, ganhar
bolhas de água ou então cancro. Petisco
espargos à mão, ele
atira-se para a descrição.
Está desesperado, enjaulado
no seu próprio frenesim. Tem
migalhas na barba.
Pergunto-me
se deveria deixar o meu cabelo mostrar o grisalho
para os meus conselhos serem mais notáveis.
Poderia enrugar as minhas pálpebras,
 
 
dar um ar de sábia.   Poderia comprar um lagarto de estimação.
Não estás doido, digo-lhe.
Já outros viveram isto. Eu também.
Amor complicado é melhor do que nenhum,
penso eu.   Não sou uma autoridade
sobre a vida sensata.
 
Tudo isto é verdade
mas não ajuda, já que
esta forma de amar é como a dor
de parto: tão intensa
que é difícil de recordar mais tarde,
ou o tipo de berros e esgares
que te forçou a fazer.
 
Os camarões chegaram no espeto,
as árvores do pátio desfraldam
as  suas lagartas amarelas,
o pólen empoeira-nos os ombros.
Ele quer ambas, narra
torturas, o café
chega, e em geral estou espantada
com os disparates dele.
 
 
Estou sentada a olhar para ele
com certa estupefação,
ou será inveja?
Escuta, digo-lhe,
tens muita sorte.
 
 
tradução paulo da costa
 
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